sábado, 18 de abril de 2009

Reflexões de Brecht

A injustiça passeia pelas ruas com passos seguros.
Os dominadores se estabelecem por dez mil anos.
Só a força os garante.
Tudo ficará como está.
Nenhuma voz se levanta além da voz dos dominadores.
No mercado da exploração se diz em voz alta:
Agora acaba de começar.
E entre os oprimidos muitos dizem:
Não se realizará jamais o que queremos!
O que ainda vive não diga: jamais!
O seguro não é seguro. Como está não ficará.
Quando os dominadores falarem
falarão também os dominados.
Quem se atreve a dizer: jamais?
De quem depende a continuação desse domínio?
De quem depende a sua destruição?
Igualmente de nós.
Os caídos que se levantem!
Os que estão perdidos que lutem!
Quem reconhece a situação como pode calar-se?
Os vencidos de agora serão os vencedores de amanhã.
E o "hoje" nascerá do "jamais".


in Elogio da Dialética

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Carta da Liberdade (de Mandela ao jornalista Thomas Friedman)

Caro Thomas,

Sei que você e eu estamos impacientes por ver a paz no Médio Oriente, mas antes de você continuar a falar das condições indispensáveis do ponto de vista israelita, quero que saiba o que penso. Por onde começar? Digamos, por 1964.

Permita-me que cite as minhas próprias palavras aquando do meu julgamento. Elas são tão acertadas agora como eram naquele tempo: "Combati a dominação branca e combati a dominação negra. Acarinhei o ideal de uma sociedade democrática e livre em que todos pudessem viver em conjunto, em harmonia e com iguais oportunidades. É um ideal que espero viver e que espero atingir. Mas, se for preciso, é um ideal pelo qual estou disposto a morrer".

Hoje, o mundo, negro e branco, reconhece que o apartheid não tem futuro. Na África do Sul, ele acabou graças à nossa própria acção de massas decisiva, para construir a paz e a segurança. Esta campanha massiva de desobediência e doutras acções só podia conduzir ao estabelecimento da democracia.

Talvez a si lhe pareça estranho identificar a situação na Palestina ou, mais especificamente, a estrutura das relações políticas e culturais entre palestinianos e israelitas, como um sistema de apartheid. O seu recente artigo "Bush’s First Memo", no New York Times de 27 de Março de 2001, demonstra-o.

Você parece surpreendido por ouvir dizer que ainda há problemas por resolver de 1948, o mais importante dos quais é o do direito de regresso dos refugiados palestinianos. O conflito israelo-palestiniano não é só um problema de ocupação militar e Israel não é um país que tenha sido criado "normalmente" e se tenha lembrado de ocupar outro país em 1967. Os palestinianos não lutam por um "Estado" e sim pela liberdade e a igualdade, exatamente como nós lutamos pela liberdade na África do Sul.

No decurso dos últimos anos, e em especial desde que o Partido Trabalhista foi para o governo, Israel mostrou que não tinha sequer a intenção de devolver o que ocupou em 1967, que os colonatos vão permanecer, que Jersualém ficaria sob soberania exclusivamente israelita e que os palestinianos não teriam nenhum Estado independente, antes seriam colocados sob a dependência económica de Israel, com controlo israelita sobre as fronteiras, sobre a terra, sobre o ar, a água e o mar.

Israel não pensava num "Estado" e sim numa "separação". O valor da separação mede-se em termos da capacidade de Israel para manter judeu um Estado judeu e de não ter uma minoria palestiniana que pudesse no futuro transformar-se em maioria. Se isso acontecesse, obrigaria Israel a tornar-se ou um Estado laico e bi-nacional ou a tornar-se um Estado de apartheid, não só de facto, mas também de direito.

Thomas, se você prestar atenção às sondagens israelitas ao longo dos últimos 30 a 40 anos, vai ver claramente um racismo grosseiro, com um terço da população a declarar-se abertamente racista. Este racismo é do tipo "Odeio os árabes" e "quero que os árabes morram". Se você também prestar atenção ao sistema judicial israelita, vai ver que há discriminação contra os palestinianos, e se considerar especialmente os territórios ocupados em 1967 vai ver que há dois sistemas judiciais em acção, que representam duas abordagens diferentes da vida humana: uma para a vida palestiniana, ou para a vida judia.

Além disso, há duas atitudes diferentes sobre a propriedade e sobre a terra. A propriedade palestiniana não é reconhecida como propriedade privada, porque pode ser confiscada.

Para a ocupação israelita da Cisjordânia e de Gaza, há um factor suplementar a tomar em conta. As chamadas "Zonas autónomas palestinianas" são bantustões. São entidades restritas no seio da estrutura de poder do sistema israelita de apartheid.

O Estado palestiniano não pode ser um sub-produto do Estado judeu, só para conservar a pureza judaica de Israel . A discriminação racial de Israel é a vida quotidiana dos palestinianos, porque Israel é um Estado judeu, os judeus israelitas têm direitos especiais de que os não-judeus não beneficiam. Os árabes palestinianos não têm lugar no Estado "judeu".

O apartheid é um crime contra a humanidade. Israel privou milhões de palestinianos da sua liberdade e da sua propriedade. Ele perpetura um sistema de discriminação racial e de desigualdade. Encarcerou e torturou sistematicamente milhares de palestininaos, em violação do direito internacional. Desencadeou uma guerra contra a população civil e em especial contra as crianças. As respostas da África do Sul em matéria de violação dos direitos humanos provenientes das políticas de deportação e das políticas de apartheid fizeram luz sobre o que a sociedade israelita deve necessariamente levar a cabo para que se possa falar duma paz justa e duradoura no Médio Oriente e do fim da política de apartheid. Thomas, eu não abaondono a diplomacia do Médio Oriente, mas não serei condescendente consigo como o são os seus apoiantes. Se você quer a paz e a democracia, apoiá-lo-ei. Se quer formalizar o apartheid, não o apoiarei. Se quer apoiar a discriminação racial e a limpeza étnica, conte com a nossa oposição. Quando tiver decidido, dê-me um telefonema.

Nelson Mandela

Publicada no Congresso do Povo na década de 50 e dirigida ao jornalista Thomas Friedman, atualmente editorialista do jornal The New York Times, especializado em relações internacionais e premiado com o renomado Pulitzer de 1983, 1988 e 2002.Justificar

domingo, 5 de abril de 2009

Loucura sã


O Instituto Philippe Pinel, no RJ, realiza um trabalho experimental para inclusão dos usuários dos serviços de saúde mental, aqueles acometidos por um grau detectável de desequilíbrio que os exclua da vida social, num projeto intitulado Papel Pinel.

Através de oficinas de arte e reciclagem de papel, os usuários do ambulatório do Hospital produzem blocos, cadernos, bolsas, camisetas, cartões, caixas de presente, com criatividade e bom gosto, num trabalho simples e bonito que tem promovido a reinserção à dignidade dos pacientes pelo trabalho artístico fundamental à terapêutica ocupacional.

A iniciativa remonta ao pioneirismo da psiquiatra Nise da Silveira, que tratou seus pacientes através de pintura e modelagem abrigados no Museu de Imagens do Inconsciente, comunidade concebida com o intuito de retirar o estigma de internação manicomial para configurar-se um "museu vivo", um espaço onde se pudesse realizar a criação, com atuação do terapeuta não centrado exclusivamente na psicotização de sintomas, mas na psicologia analítica de Jung aplicada ao processo criativo extraído de suas condições especiais, que Nise da Silveira realizou com toda sensibilidade.

A arte transcende ao paradigma da normalidade, despreza valoração. Os pacientes-artistas de Nise da Silveira eram portadores de esquizofrenia e ela os pensava “plasmadores da alma incosciente”. Nesse sentido, a criação artística para eles teve traços de relação mãe-filho, um contorno de trabalho de parto e, por nunca compreendido, tornou-se obra de comunicação incomum ou de poética incomum que, se "condenada ao silêncio (Foucault)", equivale à opressão da manifestação do pensamento.

Semelhante trabalho foi feito no sistema prisional, sem sucesso, porque nesse campo vige com mais força a idéia preconceituosa de que a exclusão é a melhor resposta do Estado, pena como vingança e não como ressocialização e reinclusão, notadamente porque através da arte institui-se a terapia e a educação, na base ideológica de que sua expressão é representação do mundo ao redor e dos ritmos constantes da vida, a indicar quão revelador poderia ser a expressão dos encarcerados sobre suas trajetórias e percepões da realidade, à força de um libelo.

“Não sou eu, são as tintas”, costumava dizer Fernando Diniz, paciente da psiquiatra, sobre seu geometrismo multifacetado, revelando em sua fala que no plano da arte opera-se uma despersonalização como efeito, sem distinção de certo e normal, porque as obras advêem da mesma natureza fundamental – o processo psíquico de elaboração criadora, que não comporta indagações de sanidade mental e de inteireza do caráter em razão de sua essência verdadeiramente terapêutica e libertadora.

Na feira da Rua do Lavradio, no último sábado, as usuárias expuseram as criações do ambulatório do Pinel e falavam de vida, liberdade, consciência com toda a sanidade que a louca modernidade permite.

Prometi-lhes visita...e quem sabe umas sessões de arte-terapia...