" Jacy é nossa lua que ilumina nossa aldeia
Tupã venha arramiar (dançar)
Eu vou pedir a minha mãe Jacy
que ela venha nos ajudar
Eu vou pedir a meu pai Tupã
para nossa aldeia se alevantar”
Aprendi a canção no Poranci, o ritual de purificação dos índios Tupinambá de Olivença, em Ilhéus, ritual de unificação e celebração da vida, da divindade e da natureza.
Fui submetida a uma avaliação da liderança para adentrar o ritual, numa perquirição se a moça “branca européia” tinha força física e espiritual para o momento. Feita a leitura, restou o desafio que me vestisse ou despisse como um deles para participar da roda, ao aviso de que o frio era estelar e o desafio representaria uma viagem, já nessa altura bem acompanhada de um medo silencioso.
Fogueira em crépito, o alinhamento dos dançantes forma na verdade um elipse – a terra pelo lado de dentro; o universo, sua face externa; o chão onde se dança é o céu; abaixo da Terra há outra morada, onde estão os espíritos, os encantamentos que comportam uma patamar superior onde estão Tupã e Jesus Cristo e, no inferior, o mal personificado na Anhanga a ser expurgada do corpo e da mente.
Esses mundos se interligam por canto, dança e fumaça – então entendi a premissa do desafio transcendental lançada pela liderança da aldeia, porquanto na roda se aprende a ciência do índio, com pouca retórica e muito sentimento, integração com o mundo interior, com o próximo através de um sentimento de pertença e respeito à ancestralidade, à raiz, repositório da manifestação do inconsciente coletivo. Perfeita representação do sentido antropológico de grupo, bem apreendida lição.
Os Tupinambá de Olivença eram conhecidos como “caboclos” e, após um período de dispersão, reorganizaram-se em busca de sua indianidade, como, aliás, marca a luta pela sobrevivência do índio brasileiro alçado à categoria de personagem para ilustrar foto de turista; já na década de 20, o governo construiu uma ponte sobre o rio Cururupe na tentativa de urbanizar o local e transformar a região dos Tupinambá em ponto de veraneio, paradigma do conflito que resultou no Massacre do Rio Cururupe um símbolo da luta do índio por sua identidade.
No esteio da vitória pela demarcação da reserva Raposa Serra do Sol, os Tupinambá de Olivença lutam pelo reconhecimento de sua própria terra, de seu espaço canto-dança, que abriga cerca de 3000 índios num perímetro de
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