quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

O corpo e a fôrma

Hoje se comemora o Dia do Deficiente Físico sem maiores alardes. Sempre considerei essas datas meras bobagens, inutilidades, a contextualizar discursos duvidosos em plenários legislativos. Nenhuma reflexão séria, nem ação contundente no tempo do pragmatismo, o que lhe retira o significado altruístico ou finalístico. O que deveria interessar à sociedade organizada, pois, é melhorar a condição dessas pessoas que se encontram em estado especial adquirido ou de sua própria natureza.

A utopia é por uma visão universalizada, garantindo-lhes o acesso o mais amplo possível aos bens e serviços, às oportunidades de trabalho e lazer o mais similar ao “normal” – uma ampla inserção, porque o reverso é a ação excludente compromissada com a expressão mal disfarçada da perversidade que triunfa no pensamento humanitário construída na concepção filosófica da corporeidade, do idealismo sacralizador à materialidade.

A visão aristotélica de que a alma interage com a forma do corpo; a inspiração teológica do pecado original no alicerce da percepção da culpabilidade (que espraiou inclusive sobre o Direito Penal); os conflitos renascentistas sobre a percepção filosófica do corpo humano no centro dos debates filosóficos e morais do ideário medieval, bem como o hedonismo, o dualismo psico-físico, a fragmentação corpórea do “penso, logo existo” cartesiano, a associação corpo-máquina no marximismo repaginada na cultura do exibicionismo da contemporaneidade sublinham a dialética da incompreendida semântica do corpo pensada como mera fôrma , tudo o que não se lhes encaixa no conceito de seu tempo por óbvio nem significado teria, ou significaria uma não-existência, bem assentada na polêmica conferência de Freud sobre o tema: “eu lhes trago a peste...”, o corpo a teor da ciência ou inconsciência, ainda sobre a base filosófica da negação.

A perversidade da visão da não-existência foi o que sempre pautou a luta dos deficientes contra essa idéia pejorativa da negação da eficiência, primado máximo da competência e do sucesso – eles não têm acesso ao direito de ir e vir, porque a engenharia urbana os exclui solenemente ou lhes destina equipamento irrisório em atenção a leis inúteis e reformistas que embalam tão-somente os discursos esvaziados. Não há qualquer política de incentivo a empregos em empresas privadas, integração curricular ao ensino universalizante, ainda que se perquira da necessidade de uma atenção específica, porque não se pode descurar de que há uma especialidade a ser cuidada, com delicadeza e respeito para que possam ser vistos e respeitados como cidadãos e não como disformes sem eficiência que a alcunha lhes indica. Depoimentos mobilizadores em telenovela se incluem no contexto da exclusão a que sempre foram renegados, ao reforçar suas dores íntimas, conquanto seu alcance educador; o que merece acolhida da consciência humana é a perspectiva de caminhos políticos que rumem à superação – a do outro é igualmente a nossa.

* A imagem é uma clássica tela de Rembrandt: "A lição de anatomia do Dr. Tulp"