domingo, 28 de novembro de 2010

Insanos

Emblemático o hasteamento da bandeira nacional e do Rio de Janeiro pelos policiais na ocupação do território do Complexo do Alemão – a recrudescência de um Estado Policial, aparato bélico, prisão para averiguações, tecnologia a serviço de uma guerra com o indisfarçável clamor social para o extermínio e execração públicos de seus alvos, nada mais do que uma espetacularização a legitimar a ilusória idéia de que segurança é garantida exclusivamente pela força.

Afinal, o Estado se aparatou de quatro vezes mais agentes do que o suposto número de inimigos para dominá-los, o que, por si só, já garantiria a rendição. Na logística da guerra, vence quem pode matar, portanto, a resposta eficiente do Estado veio ao tempo em que a sociedade autoproclamada de bem exige cada vez mais, através da resposta punitiva, restauração do império da lei e da ordem, desde que seja, evidentemente, destinado a disciplinar as classes que lhes são subjugadas.

Entretanto, nenhum belicismo teria sido necessário à vigência de um verdadeiro Estado Social, em que se deveria tratar o uso e comércio da droga como questão de saúde pública – e não de polícia, ato de coragem e avanço em descriminalizar e regulamentar uma conduta que é, prima facie, autolesiva, bem retratada como ato de autodestruição, de hedonismo narcisista, personalismo, autoagressão e aqueloutros que se inserem na seara própria da psiquiatria e que não deveria ser aferida por culpabilidade.

Veja-se que nos Estados Unidos, quando foi derrogada a lei que proibia o uso de álcool, na década de 30, Al Capone e seus cúmplices imediatamente se retiraram do negócio, que igualmente envolvia o sacrifício de inocentes, mortes, doenças e dependência, a ilegalidade é o terreno fértil da violência.

Advém do americano essa herança bélica contra a droga, iniciada no Governo Nixon, em 70, como política eleitoreira diante de pequena parcela de viciados à época – cerca de 1,3% da população, quando seu uso era permitido. Decorridos quarenta anos, mais de 70 bilhões de dólares gastos nessa cruzada proibitiva, surpreende-se que o número se mantém estável – 1.3% de drogados no esteio da ilegalidade.

A diferença marcante é que as drogas são mais letais, porque não há qualquer controle na fabricação e uso, aumentando mortes por overdose. É mais fácil uma criança, por ex., adquirir crack do que comprar cerveja e cigarro, basta a posse do dinheiro, tampouco se justifica o critério de vulnerabilidade natural da juventude. O consumo de maconha nos Estados Unidos é duas vezes maior do que na Holanda, onde é permitido, e o de drogas pesadas é quatro vezes maior, notório, pois, que a proibição jamais será impedimento à experiência individual com droga, mas na perpetuação da violência é equação intrínseca.

A irracionalidade está ainda mais na comparação, as drogas que mais matam são as lícitas e bem toleradas socialmente: cigarro vicia mais do que heroína e o álcool corroi cérebro e fígado, juntos matam mais de meio milhão de pessoas por ano em contrapartida a percentual inferior a dez por cento desse valor de óbitos por drogas ilícitas.

Mas a guerra é contra drogas ilícitas à base de atos de império, belicismo e perpetuação de desigualdades – no Rio de Janeiro só os negros e pobres que se envolveram com o comércio de ilícitas foram presos, feridos e mortos - 50 em sete dias - sob a chancela dos “homens de bem” até que sejam sucedidos por seus pares como tem sido há quarenta anos.

Na guerra irracional, somos os vencidos insanos.

sábado, 27 de novembro de 2010

Cinema e Direitos Humanos

O Rio de Janeiro sedia a 5ª Mostra Internacional de Cinema sobre a temática dos Direitos Humanos de 30/11 a 4/12/10, na Caixa Cultural, centrado na questão mais pungente do momento: o direito à memória, inclusive com a edição de uma mesa de debates sobre o resgate da verdade histórica das lutas políticas próprias à América do Sul, participação do deputado Marcelo Freixo e de Juliana Neuenschwander, docente da UFRJ, no dia 03/12/10, às 12 h.

O formato é, em regra, de curtas, linguagem documentarista, mesclado a longas já bem conhecidos do público, como "Pra Frente Brasil", marcante no contexto político da década de 80, e o singelo e emocionante "O dia em que meus pais saíram de férias". Destaco ainda o belo curta do brasileiro Daniel Ribeiro ,"Eu não quero voltar sozinho".

Presente com força ainda a temática indígena, com a presença do cacique que dirige a comunidade de Camboinhas em Niteroi no debate sobre diversidade cultural do dia 04/12 e a exibição de "Juruna, o espírito da Floresta", a luta da tribo Xavantes e a inserção de seu líder no Congresso Nacional, sob toda perspectiva, o resgate da memória que tem permeado a reconstrução da verdade de nossa identidade.

A programação completa pode ser acessada clicando-se no título da postagem.

Uma semana para entender melhor nossa cultura...