Emblemático o hasteamento da bandeira nacional e do Rio de Janeiro pelos policiais na ocupação do território do Complexo do Alemão – a recrudescência de um Estado Policial, aparato bélico, prisão para averiguações, tecnologia a serviço de uma guerra com o indisfarçável clamor social para o extermínio e execração públicos de seus alvos, nada mais do que uma espetacularização a legitimar a ilusória idéia de que segurança é garantida exclusivamente pela força.
Afinal, o Estado se aparatou de quatro vezes mais agentes do que o suposto número de inimigos para dominá-los, o que, por si só, já garantiria a rendição. Na logística da guerra, vence quem pode matar, portanto, a resposta eficiente do Estado veio ao tempo em que a sociedade autoproclamada de bem exige cada vez mais, através da resposta punitiva, restauração do império da lei e da ordem, desde que seja, evidentemente, destinado a disciplinar as classes que lhes são subjugadas.
Entretanto, nenhum belicismo teria sido necessário à vigência de um verdadeiro Estado Social, em que se deveria tratar o uso e comércio da droga como questão de saúde pública – e não de polícia, ato de coragem e avanço em descriminalizar e regulamentar uma conduta que é, prima facie, autolesiva, bem retratada como ato de autodestruição, de hedonismo narcisista, personalismo, autoagressão e aqueloutros que se inserem na seara própria da psiquiatria e que não deveria ser aferida por culpabilidade.
Veja-se que nos Estados Unidos, quando foi derrogada a lei que proibia o uso de álcool, na década de 30, Al Capone e seus cúmplices imediatamente se retiraram do negócio, que igualmente envolvia o sacrifício de inocentes, mortes, doenças e dependência, a ilegalidade é o terreno fértil da violência.
Advém do americano essa herança bélica contra a droga, iniciada no Governo Nixon, em 70, como política eleitoreira diante de pequena parcela de viciados à época – cerca de 1,3% da população, quando seu uso era permitido. Decorridos quarenta anos, mais de 70 bilhões de dólares gastos nessa cruzada proibitiva, surpreende-se que o número se mantém estável – 1.3% de drogados no esteio da ilegalidade.
A diferença marcante é que as drogas são mais letais, porque não há qualquer controle na fabricação e uso, aumentando mortes por overdose. É mais fácil uma criança, por ex., adquirir crack do que comprar cerveja e cigarro, basta a posse do dinheiro, tampouco se justifica o critério de vulnerabilidade natural da juventude. O consumo de maconha nos Estados Unidos é duas vezes maior do que na Holanda, onde é permitido, e o de drogas pesadas é quatro vezes maior, notório, pois, que a proibição jamais será impedimento à experiência individual com droga, mas na perpetuação da violência é equação intrínseca.
A irracionalidade está ainda mais na comparação, as drogas que mais matam são as lícitas e bem toleradas socialmente: cigarro vicia mais do que heroína e o álcool corroi cérebro e fígado, juntos matam mais de meio milhão de pessoas por ano em contrapartida a percentual inferior a dez por cento desse valor de óbitos por drogas ilícitas.
Mas a guerra é contra drogas ilícitas à base de atos de império, belicismo e perpetuação de desigualdades – no Rio de Janeiro só os negros e pobres que se envolveram com o comércio de ilícitas foram presos, feridos e mortos - 50 em sete dias - sob a chancela dos “homens de bem” até que sejam sucedidos por seus pares como tem sido há quarenta anos.
Na guerra irracional, somos os vencidos insanos.
