segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

O povo do Darcy


O antropólogo Darcy Ribeiro foi um dos ideólogos da Passarela do Samba e a apelidou de Sambódromo. Pensou num espaço onde as escolas de samba que desfilam pela avenida evoluíssem para uma congregação de emoções e sentimentos, uma manifestação popular livre de quesitação pré-definida movida pela espontaneidade. Era a Praça da Apoteose, ode ao coletivo na idéia original pensada como gozo, transcendência do conjunto artístico da obra pela imagem também visualizada ao avesso, amorfa, desfeita de seu formato primeiro, móvel, comunicativa, construtora ou mesmo destrutiva a teor de um novo conceito que se passaria a formar com o orgasmo recriado, idéia mal compreendida e expurgada pelos teóricos do engessamento das formas.

A Estação Primeira de Mangueira pautou-se na visão coletiva de Darcy Ribeiro e o trouxe de volta ao palco do samba referenciada na sua fundamental obra “O povo brasileiro” para cantar nossa identidade étnica, nosso sincretismo primário sob o olhar do homem, sua interação com o próximo e com a terra, o solo fertilizado por “sangue, suor, religião” na linguagem dos compositores da Verde e Rosa.

O autor propõe a desmitificação da premissa de que nosso povo fora pacifista em sua formação ao se debruçar sobre a história violenta de unidade política que se desenvolveu mediante a supressão de nossa identidade étnica em elegia ao processo de estratificação social, numa cisão muito mais profunda do que a questão das raças no País. A guerra dos Cabanos, que teve traço de genocídio, Palmares, conflitos entre lusos e índios, revoltas negras, a guerra pela independência, a insurreição dos Malês, a Farroupilha reafirmaram o passado de lutas, bem como a Guerra dos Canudos, simbologia ímpar da herança religiosa e do apego à terra - os seguidores faziam sua roça para consumo - lançando as bases para o movimento ruralista no Brasil. Todos estes movimentos populares cunharam uma nação unificada em sua base e paradoxalmente dividida – os Brasis ---, composto por gente vinda da Europa, da África, das florestas que surpreendentemente sedimentaram uma cultura homogênea de singular beleza.

O Brasil Caboclo se formou e se multiplicou numa vasta população de gente destribalizada e deculturada oriunda da invasão européia que transformou o povo da Floresta, denominado “índios genéricos”, sem língua e cultura próprias, aos quais foram miscigenados aos mestiços gestados por brancos e mulheres indígenas, que tampouco sendo índios e europeus (numa visão purista), falavam o tupi e resultaram nos caboclos.

A paulistana caipira descobriu o que Portugal desejava: o ouro. A busca pelo enriquecimento promoveu então uma grande diáspora (a cultura do ouro), igrejas suntuosas foram estabelecidas nos territórios de Minas Gerais e posteriormente espalhou-se para Mato Grosso e Goiás. Criou-se assim uma cultura dessa gente dispersa que, esgotado o ouro, estabeleceu-se no contato com a a terra e no cultivo da roça de milho, criação de porco, toucinho, vaca, produção de queijo.Dos bandeirantes, quando sedentarizados, vieram os fazendeiros e produtores formando o Brasil Caipira.

Do tráfico de negros da África para a América, cerca de doze milhões no Brasil, metade foi incorporada ao sistema produtivo daqui, especialmente no cultivo do açúcar, na região de Pernambuco à Bahia, que Darcy Ribeiro chama de região Crioula. Posteriormente, o Rio de Janeiro acolheu as províncias negras, nas quais a arte africana se expressa com vigor, os ritmos, a cuíca e o berimbau, a sensualidade libertadora; na culinária, vieram o azeite de dendê, o quiabo, a banana, a pimenta malagueta, o preparo do peixe e galinha, dominaram a cozinha. Darcy Ribeiro observa que os negros do Rio de Janeiro inventaram Iemanjá, uma deusa do amor numa operação cultural mais importante do que qualquer romance, na medida em que passou a ser depositária de pedidos de harmonia afetiva. Engajaram-se tanto na construção do Brasil que perderam parte de sua identidade original.

Na matriz sertaneja, o autor desfaz a idéia de que o Nordeste é a representação da seca, evocando a destinação do Rio São Francisco que possibilitou o plantio de uva e outras frutas. Acolheu a religião católica de Portugal e a simplicidade e religiosidade de seu povo foi o cenário para a atuação dos beatos representados na figura máxima do Conselheiro. Foram para a zona agrícola do sul e migraram para as áreas urbanas, construção civil e indústria, ostentando mão- de- obra desqualificada.

Nos Brasis sulinos, o autor nos fala não de um, mas de três brasis: o dos índios guaranis e das Missões Jesuíticas, que geraram os gaúchos; "o dos ilhenhos, que Portugal mandou buscar para pôr uma presença portuguesa lá e dos gringos, a gringalhada que caiu lá, como uma onda" para concluir com seu pensamento de que o "Brasil é um povo mestiço na carne e no espírito e, como tal, herdeiro de todas as taras e talentos da humanidade."

Darcy Ribeiro gostava profundamente dos iracundos, os intelectuais raivosos que, como ele, vislumbram o mundo pelo rompimento com o estabelecido. Referencia-se em Gregório de Matos, onde o Brasil pela primeira vez teve espírito e foi brasileiro; Manuel Bonfim, o Silvio Romero que mostrou o racismo como técnica européia de dominação colonial e declarou com todas as palavras que o mulato brasileiro funcionava perfeitamente bem...aí estariam as bases da postura para um brasileiro.

Na seara da expressão, que se tome a Mangueira desse sentimento iracundo para homenagear o mais utópico e visionário brasileiro, devolvendo ao humanista Darcy Ribeiro a apoteose que lhe fora subtraída, já sem praças, mas em espírito genuinamente transfigurado na cara de povo.

Canta Estação Primeira!

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Tambor ecológico


O Djembê é um tambor extremamente popular na África, especialmente no Senegal e Guiné Bissau, e sua origem está na formação histórica do islamismo na África Negra. Sua forma retratada no desenho de um cálice assemelha-se a antigos tambores árabes de cerâmica ou metal. Dele, ecoam ritmos de guerra, de morte, de nascimento, de plantação, de invocação de crianças, numa variedade de toques que influenciou sobremaneira a percussão brasileira, sendo afinado à frio ao contrário dos tambores do jongo, por exemplo.

Mas a própria África protagoniza uma experiência ímpar com o instrumento: um importante laboratório da região está utilizando um método artesanal de reciclar lixo plástico, que permitiu ao escultor Jean Marie Perdrix recriar esse instrumento sem a tradicional madeira.

Para 2000 djembês, foram recicladas 20 toneladas de lixo plástico, preservando-se cerca de 100 toneladas da madeira.

Bela iniciativa, que poderia ter a adesão e divulgação da maior expressão do mundo no instrumento, a lenda Mamadi Keita.

Mojubá!

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Retratos da indignidade

Ele se apresentou como Leandro da Silva Messias e contou sua história:

“Fui preso na FEBEM de Tatuapé.
Lá é horrível, se não for ligeiro você apanha todo dia.
Quando eu caí lá dentro, tinha muita gente presa, até meu irmão, no ato, tava preso
ele é quem fazia a minha segurança, né? Me protegia e eu protegia ele.
Meu irmão tinha 14 anos. Morreu.
Matou policial e aí foi morto, no dia da rebelião na FEBEM matou um policial...
Aí os policiais foram atrás dele ou as pessoas que ele devia foram atrás dele.
Devia droga, devia aparelhagem de som que eles roubaram e ele vendeu e não dividiu com o pessoal...era merda, eu nem gosto de comentar essa história...
Ai eu entrei e comecei a brigar lá dentro
ué queriam me bater e aí eu ia me defender
mas foi também lá dentro eu estudei, fiz curso de informática...”

O lar


“A casa da minha mãe – ela tem uma casa em Monguaguá – a casa dela todinha é montada no lixo: as madeirites dela, as telhas dela, o fogão, a TV, o vídeo, ela tem de tudo, som DVD, é tudo do lixo.
Madeirite para parede da casa, um barraco.
Tem pulga aqui, coça mesmo, só que nós já é acostumado já, a gente segura a onda...
A gente também come lixo direto com a mão, tá acostumado, se não comer fica ruim, quando fica parado não come uma pizza ou um chocolatezinho, uma coisa diferente assim do lixo, a gente sente falta.”

É difícil conseguir fora do lixo?

“É dificílimo...”

"Ainda vivemos como nossos pais"


Ela se apresentou como C. C.M., uma menina, e contou sua história:

“Namoro o Leandro.
Já tentei fugir de casa por causa dele, minha mãe não deixa, minha irmã não sabe, minha tia também não. Minha mãe não deixa, porque gosta dele para namorar...
Minha mãe tem 30 anos”.

Leandro conta que na casa vivem oito pessoas e na mesma cama dormem ele, a menina, a mãe e a tia dela,“mas no final de tudo, todo mundo é amigo, todo mundo em paz, não tem mais fofoca, ninguém é de ninguém e todo mundo é só colega”.

Dez dias depois surge a notícia de gravidez da adolescente.

A menor e Leandro querem o filho. “A mãe dela teve filho com 12 anos; a minha com 16 e vivem bem até hoje, mas acho que ela é muito nova pra ter filho é muito arriscado uma gravidez na idade dela, arriscado porque eu já tive amigas que tiveram filho com 14 anos, só voltou o filho, a menina ficou no hospital”.

A cada ano, morrem mais de meio milhão de mulheres de complicação no parto no mundo todo - entre elas, cerca de 70 mil meninas e jovens entre 15 e 19 anos. Desde 1990, as complicações na gravidez e no parto chegaram a matar perto de 10 milhões de mulheres. Cerca de 99% dessas mortes ocorrem nos países em desenvolvimento - e os países com mais risco de morte materna são os miseráveis africanos.

C. sofreu um aborto e perdeu outros 5 bebês nos dois anos seguintes até nascer Katlen Caterine e ajudar os pais a catar latinhas nas noites para sobreviver do lixo...

A história familiar dos catadores de lixo é idêntica a de cerca de vinte milhões de brasileiros que vivem em condições miseráveis e são considerados indigentes.

Frente ao cenário, as “soluções” mais visadas por quem tem o dever de enfrentá-las são as leis penais que surgem para resolver problemas sociais, uma falsa mensagem a embasar a falácia do sistema punitivo.

É que a lei penal não custa absolutamente nada e rende mídia. No ano de 2008, por exemplo, foram quatro alterações legais sobre a matéria contra três de cunho econômico e social, mais relevantes e necessárias.

E nós, atores da nossa própria história, representamos sempre os mesmos personagens...afinal, a questão da indignidade humana na sua face exterior é quase sempre do outro. Se nos incomoda, clamamos por soluções de cárcere, por uso da força e exclusão social em evidente e odiosa manifestação da individualidade egocêntrica em relação ao próximo, que só está na esfera da miserabilidade porque o Estado (que é uma representação do que pensa a sociedade) não cumpre sua missão constitucional, tampouco suas instituições.

Em estado de natureza, não há qualquer distinção entre os homens, portanto, todos eles têm direito ao acesso aos bens indispensáveis à existência digna; o que efetivamente difere é a instrumentalização do acesso que a minoria faz pelo poder econômico, enquanto a maioria pode valer-se do uso ilegal da força, até por sua característica de massa, numa clara resposta de seus próprios meios à exclusão da essencialidade.

Na visão do critério do justo e do legítimo, o quadro que se desenha é acintoso: o Estado não cumpre seu papel, a sociedade valida essa omissão e nem mesmo a supre com práticas solidárias, o que seria uma saída magnífica do povo, por suas razões humanistas ou religiosas, por que razão os que são legados à condição subumana deveriam respeitar as leis se estão em evidente vulnerabilidade subtraídos de seus direitos naturais?

Essa desigualdade ontológica é a lógica do sistema perverso.

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Os relatos são fragmentos do documentário dirigido por Alexandre Stockler pelo Marco Universal dos Direitos Humanos exibido pelo SESC/TV em dezembro de 2008.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Axiologia da Dignidade Humana

O traço modernista de Drummond de Andrade no poema “E agora José?” traduz o mosaico do homem sem direitos expresso no verso-síntese “você que é sem nome”, uma destituição da personalidade civil – não se lhe permite o riso (entretenimento), o discurso, a incoerência (manifestação), sua gula e jejum (alimentação), o teto (não existe porta), sua teogonia ( linhagem mitológica) e o sentimento de pertença a um grupo, nação (o povo sumiu). O homem sem direitos do poeta é a negação de sua utopia sublinhada no vocativo “José, para onde?”

A visão meramente antropológica do poeta é contraponto ao valor essencial de cunho negativo que caracteriza a noção da dignidade – sua inserção nos textos legais impõe a todos a abstenção de condutas violadoras à pessoa e bem assim a efetivação de prestações positivas que afirmem seu pleno desenvolvimento, coerente com os paradigmas do constitucionalismo democrático social contemporâneo. Sua observância é fundamento de um Estado de Direito.

Como valor ontológico, é princípio oriundo da natureza moral, livre e racional do ser humano, pensado como sujeito de direitos, não instrumento ou objeto, razão de seu caráter supraconstitucional – as leis e as Constituições apenas o reconhecem, não o concebem, por inspiração jusnaturalista.

O pensamento cristão foi marco importante. A idéia teológica da “imagem e semelhança divinas” concedeu ao homem uma dignidade superior outorgada por Deus que o associa à sua própria vida e, ao legar os dez mandamentos, reuniu-os a um só – amar ao próximo como a si – simbolizando a relação angular do homem com o Criador, consigo e com o próximo na base da reciprocidade e do respeito.

As referências iluministas evoluíram para o pensamento racionalista, centrado na individualidade a se perquirir se não estaria nesta interpretação a origem das mazelas coletivas. É neste cenário que as Declarações de Direitos reverteram em favor da burguesia emergente do modo capitalista, conforme assinalou Doig K, “ a Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão foi absolutamente insuficiente e deu origem a um liberalismo a toda prova que serviu de quadro para abusar da vida e da dignidade dos homens”, naturalmente ressalvado o advento das liberdades públicas indispensáveis à existência digna.

A Constituição da República de 1988 acolheu o princípio da dignidade humana como princípio político constitucionalmente conformador (Canotilho), estruturante do regime, que confere unidade sistêmica a todo o ordenamento jurídico como fundamento de validade (o homem como fim, não o Estado), não mais para ser usado em caráter supletivo e orientador, mas efetivado como princípio-garantia oriundo eminentemente da compreensão do que é o homem, sua existência e sua dimensão psíquica e espiritual inseparável de sua essência, porquanto dessa reflexão foi cunhada a proteção à família, à infância, ao idoso, ao consumidor, ao meio ambiente equilibrado e mais recentemente as experiências embrionárias.

À margem da dogmática jurídica, o poeta situa a luta pela evolução do homem nos versos “você marcha, José! José, para onde?” na indagação de um sentido para a existência desrespeitada em seus direitos originários e reponde na idéia da resistência que lhe deu significado: “você não morre, você é duro, José!”, antevisão e crença para todos os humanistas.