
Ela se apresentou como C. C.M., uma menina, e contou sua história:
Já tentei fugir de casa por causa dele, minha mãe não deixa, minha irmã não sabe, minha tia também não. Minha mãe não deixa, porque gosta dele para namorar...
Minha mãe tem 30 anos”.
Leandro conta que na casa vivem oito pessoas e na mesma cama dormem ele, a menina, a mãe e a tia dela,“mas no final de tudo, todo mundo é amigo, todo mundo em paz, não tem mais fofoca, ninguém é de ninguém e todo mundo é só colega”.
Dez dias depois surge a notícia de gravidez da adolescente.
A menor e Leandro querem o filho. “A mãe dela teve filho com 12 anos; a minha com 16 e vivem bem até hoje, mas acho que ela é muito nova pra ter filho é muito arriscado uma gravidez na idade dela, arriscado porque eu já tive amigas que tiveram filho com 14 anos, só voltou o filho, a menina ficou no hospital”.
A cada ano, morrem mais de meio milhão de mulheres de complicação no parto no mundo todo - entre elas, cerca de 70 mil meninas e jovens entre 15 e 19 anos. Desde 1990, as complicações na gravidez e no parto chegaram a matar perto de 10 milhões de mulheres. Cerca de 99% dessas mortes ocorrem nos países em desenvolvimento - e os países com mais risco de morte materna são os miseráveis africanos.
C. sofreu um aborto e perdeu outros 5 bebês nos dois anos seguintes até nascer Katlen Caterine e ajudar os pais a catar latinhas nas noites para sobreviver do lixo...
A história familiar dos catadores de lixo é idêntica a de cerca de vinte milhões de brasileiros que vivem em condições miseráveis e são considerados indigentes.
Frente ao cenário, as “soluções” mais visadas por quem tem o dever de enfrentá-las são as leis penais que surgem para resolver problemas sociais, uma falsa mensagem a embasar a falácia do sistema punitivo.
É que a lei penal não custa absolutamente nada e rende mídia. No ano de 2008, por exemplo, foram quatro alterações legais sobre a matéria contra três de cunho econômico e social, mais relevantes e necessárias.
Em estado de natureza, não há qualquer distinção entre os homens, portanto, todos eles têm direito ao acesso aos bens indispensáveis à existência digna; o que efetivamente difere é a instrumentalização do acesso que a minoria faz pelo poder econômico, enquanto a maioria pode valer-se do uso ilegal da força, até por sua característica de massa, numa clara resposta de seus próprios meios à exclusão da essencialidade.
Na visão do critério do justo e do legítimo, o quadro que se desenha é acintoso: o Estado não cumpre seu papel, a sociedade valida essa omissão e nem mesmo a supre com práticas solidárias, o que seria uma saída magnífica do povo, por suas razões humanistas ou religiosas, por que razão os que são legados à condição subumana deveriam respeitar as leis se estão em evidente vulnerabilidade subtraídos de seus direitos naturais?
Essa desigualdade ontológica é a lógica do sistema perverso.
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Os relatos são fragmentos do documentário dirigido por Alexandre Stockler pelo Marco Universal dos Direitos Humanos exibido pelo SESC/TV em dezembro de 2008.

O que pensar então? Como seria, um anarquismo?
ResponderExcluirVocê está linda nessa foto e além de tudo ainda é inteligente...! ô sorte
ResponderExcluirBEATRIZ, não é propriamente uma defesa do anarquismo no que o movimento tem de negação da propriedade privada, da legitimidade do Estado ou da crença da forma voluntária e autodisciplinada da ordem social (o que como idéia é maravilhosamente utópica para as questões existencias da contemporaneidade). É mais uma reflexão sobre a visão pouco equilibrada de se exigir do homem a observância legal, quando quem deve exigir dele não cumpre sua prestação (é uma violação do pacto social). No campo da filosofia, evidentemente, porque quando a sociedade se aperceber do que a cerca, talvez ela faça a parte que lhe cabe, inclusive de exigir do Estado sua efetiva atuação constitucional. É muito perverso tratar questões sociais com medidas penais, como questões de segurança pública clamadas efusivamente por quem é incapaz de transcender à sua condição socio-economica para repensar o mundo que o cerca.
ResponderExcluirAbraço.