
O Instituto Philippe Pinel, no RJ, realiza um trabalho experimental para inclusão dos usuários dos serviços de saúde mental, aqueles acometidos por um grau detectável de desequilíbrio que os exclua da vida social, num projeto intitulado Papel Pinel.
Através de oficinas de arte e reciclagem de papel, os usuários do ambulatório do Hospital produzem blocos, cadernos, bolsas, camisetas, cartões, caixas de presente, com criatividade e bom gosto, num trabalho simples e bonito que tem promovido a reinserção à dignidade dos pacientes pelo trabalho artístico fundamental à terapêutica ocupacional.
A iniciativa remonta ao pioneirismo da psiquiatra Nise da Silveira, que tratou seus pacientes através de pintura e modelagem abrigados no Museu de Imagens do Inconsciente, comunidade concebida com o intuito de retirar o estigma de internação manicomial para configurar-se um "museu vivo", um espaço onde se pudesse realizar a criação, com atuação do terapeuta não centrado exclusivamente na psicotização de sintomas, mas na psicologia analítica de Jung aplicada ao processo criativo extraído de suas condições especiais, que Nise da Silveira realizou com toda sensibilidade.
A arte transcende ao paradigma da normalidade, despreza valoração. Os pacientes-artistas de Nise da Silveira eram portadores de esquizofrenia e ela os pensava “plasmadores da alma incosciente”. Nesse sentido, a criação artística para eles teve traços de relação mãe-filho, um contorno de trabalho de parto e, por nunca compreendido, tornou-se obra de comunicação incomum ou de poética incomum que, se "condenada ao silêncio (Foucault)", equivale à opressão da manifestação do pensamento.
Semelhante trabalho foi feito no sistema prisional, sem sucesso, porque nesse campo vige com mais força a idéia preconceituosa de que a exclusão é a melhor resposta do Estado, pena como vingança e não como ressocialização e reinclusão, notadamente porque através da arte institui-se a terapia e a educação, na base ideológica de que sua expressão é representação do mundo ao redor e dos ritmos constantes da vida, a indicar quão revelador poderia ser a expressão dos encarcerados sobre suas trajetórias e percepões da realidade, à força de um libelo.
“Não sou eu, são as tintas”, costumava dizer Fernando Diniz, paciente da psiquiatra, sobre seu geometrismo multifacetado, revelando em sua fala que no plano da arte opera-se uma despersonalização como efeito, sem distinção de certo e normal, porque as obras advêem da mesma natureza fundamental – o processo psíquico de elaboração criadora, que não comporta indagações de sanidade mental e de inteireza do caráter em razão de sua essência verdadeiramente terapêutica e libertadora.
Na feira da Rua do Lavradio, no último sábado, as usuárias expuseram as criações do ambulatório do Pinel e falavam de vida, liberdade, consciência com toda a sanidade que a louca modernidade permite.
Prometi-lhes visita...e quem sabe umas sessões de arte-terapia...

Essa psiquiatra foi uma das figuras mais importantes do Brasil, muita coragem para trocar eletrochoque por pintura. Humanizou o tratamento dos pacientes e lhes deu dignidade sem dúvida. Agora, vem cá Andreia Garcia, você vai fazer umas sessoezinhas de arte terapia no Pinel??? Mesmo...depois conta aí pra gente como foi e mostra o filho
ResponderExcluirMuito legal são iniciativas que não precisam tanto investimento, mas vontade que outra coisa e uma certa mao de obra, então se não fazem mais é porque não investem
ResponderExcluirUm barato, menina! Saudade de você.
ResponderExcluirEu adorei esse blog, meu professor indicou, valeu
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