Pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro e da Nacional de Brasília concluíram um estudo sobre o perfil dos condenados por tráfico de drogas no Brasil: a maior parte deles é homem (76,4%), réu primário, preso em flagrante (88,9%), desarmado (14,1%) e estava sozinho no ato da prisão (61,5%).Os números contestam, por estimativa, o retrato do inimigo perverso que a sociedade elege por incitação pública, sem qualquer contraponto à ausência ou deficiência das políticas públicas de educação e saúde coletiva à conferência de que o rosto do apenado em questão tem o contorno do pequeno traficante – 97,7% dos presos portam pequena quantidade da substância entorpecente.
A conclusão dos pesquisadores ratifica sobejamente o caráter seletivo da aplicação da lei penal, especialmente em tema de droga – matéria pulsante no tecido social – uma vez que os condenados não oferecem lesividade social importante, a se aferir quase uma insignificância penal ou uma bagatela em face das pequenas quantidades apreendidas, não se justificando, pois, a imposição de penalidades severas em desproporção odiosa que não seja aquela pautada nas práticas do justiçamento do anseio popular. É conduta selecionada para emblematizar o reforço da prevenção geral positiva, contabilizando apenados como bandeira política das “cruzadas” contra a droga, à metáfora contemporânea do movimento de expurgação medieval dos “infiéis” – libertação da terra santa dos perigos eleitos.
A distorção repercute ainda no tratamento jurídico que se pretende à redução da maioridade penal, concebida para coibir a atuação dos “meninos do tráfico” que concorrem, de algum modo, para a organização criminosa e praticam delitos de "gente grande". É evidente que o seu maior engajamento advém do meio que o cerca e da ausência de proteção à infância e adolescência, o Estado não provê o mínimo para uma família se organizar e prosperar. O envolvimento dos jovens de classe média com a droga é custeado pelas famílias, consumo e posterior tratamento; nas classes pobres, a contraprestação se dá pela exploração do trabalho, inclusive para custear o consumo, que é problema coletivo e não distingue classe social, apenas no tratamento finalístico: uma vítima é bem cuidada e raramente será condenada, porque pode ser economicamente mera usuária; à outra, cuja família é privada de qualquer alternativa, pretende-se furtar a juventude à estirpe do grande traficante eleito inimigo do cidadão “de bem”.
Não bastasse a ofensa clara ao princípio constitucional da proporcionalidade da pena ao delito, reverbera ainda no contexto a inadequação da pena à participação do condenado na organização criminosa, impingindo a todos os réus primários, desarmados, que não ofereceram resistência à prisão, o regime fechado no cumprimento da pena aplicado aos grandes traficantes, o que significa no dito popular “farinha do mesmo saco” ou “gatos de um mesmo balaio”, inadmissível tratamento jurídico viciado pela visão popular, parcial e de raso debate.
Os magistrados não estão investidos no cargo para reproduzir norma particular cunhada na aspiração popular, conquanto nela se imiscuam, a perpetuar a reprodução da injustiça e de uma insurgência à heteronomia constitucional que é própria dos arbitrários e dos tiranos.

Andreia eu quero comentar com mais calma, suas opiniões são profundas, você manda bem. Sou aluno de Direito da Universo de São Gonçalo e o professo Madeira indicou esse blog para os alunos, estou aprendendo bastante, te enviei um mail para um convite. foi pra o que está aqui no seu perfil. Espero resposta.
ResponderExcluirAndréia, seria bastante interessante no meu ponto de vista saber o percentual de menores submetidos a medidas socioeducativas previstas pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, ( ECA ), quê na minha opinião, clarificaria mais a questão. É uma visão míope concentrar a discussão hora apresentada apenas na figura do pequeno traficante até porque acho que não só políticas públicas de educação e saúde coletiva, que no caso das classes mais pobres teriam o dom de transformar esta realidade num curto prazo, assim como o envolvimento dos jovens de classe média, tem o tratamento como uma panacéia em que a aproximação do jovem ao que causou esta dependência continua intacta. Penso que está na hora de colocar na discussão como poderemos sufocar financeiramente os grandes traficantes, diminuir sua força econômica e política com um grande e incansável trabalho de investigação caracterizando esses delinqüentes dentro do que a lei determina para eles e como a legislação vigente pode ser aperfeiçoada ou em alguns casos, modificada pelo nosso grande congresso, considerando não só os chamados crimes hediondos, mas também os crimes econômicos considerando uma economia globalizada. As respostas a esta questão têm que ser atacadas em todas os seus aspectos, achar que só a redução da maioridade penal resolva o problema será dar uma satisfação a sociedade que ao deixar de pensar com profundidade uma saída para o cada vez mais crônico problema de segurança, é enxugar gelo só as políticas públicas irão distanciar o jovem da questão da droga, mas uma eficácia mais abrangente está diretamente relacionada a extinção da vasta cadeia de produção do narcotráfico.
ResponderExcluirNão é fácil. Dá trabalho. Mas Benvindo à vida.
Acho que você falou um negócio certo os presos são os peixes pequenos isso que revolta a população, enquanto eles estão livres nós estamos presos porque esse negocio de droga é que está acabando com o mundo, mas não sei o que seria melhor talvez fosse pegar os pequenos e os grandes e enfiar pena neles e GRANDE! Tolerância zero. Um beijo querida
ResponderExcluirHamilton, em 2006 o percentual de adolescentes em conflito com a lei era de 0,14%. Pasme!!!E, dentro os crimes praticados, a maior parte é roubo e tráfico de drogas, com baixo percentual para os crimes contra a pessoa, situação que se mantém atual. E, se não bastasse o contexto sociológico, os números já espancariam essa fétida idéia de redução da idade penal diante do predomínio dos tipos penais a indicar ausência de razoabilidade em se restringir a liberdade de um menor para proteger ainda mais o patrimônio. Mas caberia o contraponto ao aumento do número de mortes de jovens entre 15 e 24 anos, que a mídia se mostra pouca escandalizada...porém, a inserção desse debate da redução da idade penal foi apenas para ilustrar a demanda inútil no combate às drogas pela repressão. Imagine que o Governo do RJ e o Governo Federal firmaram uma parceria de 200 milhões destinados à Segurança Pública, que serão aplicados em DELEGACIA LEGAL!!! Expansão ao interior e informatização, o que significa mais uma vez AUSÊNCIA de efetiva política pública de segurança.
ResponderExcluirAgora, extinção da vasta cadeia de produção do narcotráfico e sufocar financeiramente os traficantes, só uma saída: descriminalizar a produção e comércio de droga, tratando-os como política de saúde pública, prevenção e redução de danos.
ResponderExcluirSandrinha, o que está "acabando com o mundo" é a desigualdade e a intolerância, a exacerbação do poder punitivo, que se manifesta já nos grupos primários, como a família por ex e se projeta nas políticas internacionais geradoras de exclusão e sujeição. O uso da força só sublinhou destruição. Seria interessante você revisitar alguns desses conceitos, a partir da percepção de como o entendimento se construiu pelo diálogo multisetorial, ou maior tolerância. A troca do uso da força pelo respeito à dignidade humana e à inclusão. O mundo convive com penas bárbaras, capitais e as ditas ressocializantes e, em nenhum tempo, elas deram conta de aplacar os desequilíbrios socioculturais. Têm sido ainda necessárias, mas a humanidade caminha para um processo de despenalização, a partir do estudo de que a pena não diminui o conflito social e naturalmente não recupera o apenado ao convívio. É a falência do sistema a ensejar novas alternativas cada vez mais distanciadas da tolerância zero, porquanto repugna o retribucionismo puro e simples do Talião. Beijos pra ti também.
ResponderExcluirEu não concordo com a idéia de descriminalizar as drogas não Andreia, não é por aí, mas eu acho que poderiam incentivar o diálogo regado a muita cerveja...kkkkkkkkk
ResponderExcluirO mundo ia melhorar
Passei para dizer que você está coisa linda com essa cor de cabelo, vi na sua foto, está ainda mais "cinematográfica", já e falei que a porta está aberta. Parabéns pelas suas idéias sempre lúcidas, eu concordo com a descriminalização da droga isso é hiprocrisia. Eu não sou da área, sou do cinema, mas por isso a gente tem uma visao da sociedade sem muitas regras, o Brasil é muito atrasado nessa questão, eu penso na Holanda por exemplo.
ResponderExcluirComplementando Hamilton, vi um documento hoje que criava o Indice de Homicidio da Adolescência (IHA) medido pela UERJ em conjunto com Observatório das Favelas a indicar que 46% das causas mortis de adolescentes no Brasil é de homicídios. Uma média estimada de 2006 a 2012 de 13 mortes diárias. Os homens têm doze vezes mais probabilidades de morte e os negros três vezes mais. Quem são de fato os agressores?!?
ResponderExcluirBia Bia, talvez o mundo melhorasse sim com a descriminalização dos psicoativos, porque a medida arrastaria para o contexto o comércio das armas, que ao universo das drogas, associa-se para resolução de conflitos da clandestinidade. É o laissez-fare aplicado à matéria.
ResponderExcluirMelhoraria também o enfrentamento das questões relativas à saúde pública, em matéria de prevenção e tratamento no uso das drogas. Evidente que não seria um "liberar geral",até porque hoje se tem que enfrentar o ecstasy mortal, mas regulamentar o comércio e produção da droga em garantia da população, intervenção estatal para garantia da saúde e ordem pública, porque nada impede que se pudesse comprar droga nas farmácias e laboratórios mediante prescrição, como se faz com o uso dos psicotrópicos, por ex, que são drogas e podem também matar, conforme o uso indiscriminado, mas que o tratamento específico e adequado implementado pelos médicos é bem aceito e ministrado por profissionais e usuários.
Numa outra visão, o endurecimento na repressão às drogas não impactou o tráfico e está na base de uma política de extermínio que a polícia carioca implementa na cidade, um terror punitivo que em contraponto afeta a sociedade, sem nenhum resultado pragmático, o que demonstra que o proibicionismo na matéria é irracionalidade. Alguns preferem o diálogo regado a cerveja e cigarro, drogas legais e de incentivo social; outros curtem outros "baratos" mais danosos, entretanto, insertos na mesma generalidade. Não sejamos maniqueístas.
Gostei da foto que está no título do blog Andreia.
ResponderExcluirBeto, é uma imagem do fotógrafo Sidibé, na retratação da Dolce Vita Africana, que nos anos 60/70 em Mali retratava a curtição da música cubana, do Congo e americana, corpos seminus, uma atitude de "modernidade". O rompimento com a trágica imagem africana, que Sebastião Salgado humanizou através de seu olhar (a foto do menino ao lado é dele, metáfora à vegetação agonizante). Embora ostentem visões distintas, a imagem da nudez em questão, numa e noutra, sinaliza os valores que cercam as questões humanitárias.
ResponderExcluirAndreia, parabéns por esta iniciativa maravilhosa ! vamos clamar no deserto, mas vamos gritar bem alto da seletividade do sistema penal e principalmente do comprovado e esmagador crescimento de encarceramento de jovens em situação de risco. A sociedade precisa acordar 'para o furor persecutório' desencadeado pelas também políticas de segurança pública (não)perpetradas pelo Estado.
ResponderExcluir