quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

E agora José?


Um tratado sobre a condição humana, por Drummond de Andrade:


E agora, josé?
A festa acabou,
A luz apagou,
O povo sumiu,
A noite esfriou,
E agora, josé?
E agora, você?
Você que é sem nome,
Que zomba dos outros,
Você que faz versos,
Que ama, protesta?
E agora, josé?

Está sem mulher,
Está sem carinho,
Está sem discurso,
Já não pode beber,
Já não pode fumar,
Cuspir já não pode,
A noite esfriou,
O dia não veio,
O bonde não veio,
O riso não veio
Não veio a utopia
E tudo acabou
E tudo fugiu
E tudo mofou,
E agora, josé?

Sua doce palavra,
Seu instante de febre,
Sua gula e jejum,
Sua biblioteca,
Sua lavra de ouro,
Seu terno de vidro,
Sua incoerência,
Seu ódio - e agora?

Com a chave na mão
Quer abrir a porta,
Não existe porta;
Quer morrer no mar,
Mas o mar secou;
Quer ir para minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
Se você gemesse,
Se você tocasse
A valsa vienense,
Se você dormisse,
Se você cansasse,
Se você morresse...
Mas você não morre,
Você é duro, josé!

Sozinho no escuro
Qual bicho-do-mato,
Sem teogonia,
Sem parede nua
Para se encostar,
Sem cavalo preto
Que fuja a galope,
Você marcha, josé!
José, para onde?

Você marcha José, José para onde?
Marcha José, José para onde?
José para onde?
Para onde?

E agora José?
José para onde?
E agora José?
Para onde?

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Arte cidadã


Toda a verborragia do ilustre Lima Barreto contra a República lhe rendeu a fama de escritor anárquico e adepto do regime monárquico, um monárquico “liberal”,em razão de ter sido protegido por um deles, o que, na ideologia, evidencia paradoxo insuperável. Na verdade, fora um nacionalista incompreendido em sua crítica voraz ao sistema e à hierarquização de classes sociais através da literatura como arte, função social.

Em Triste Fim de Policarpo Quaresma, sua obra fundamental e com traços autobiográficos, estão retratados a máxima valorização da cultura nacional, a moda, a culinária, a música, a dança, a língua que o personagem propunha ser o tupi pela identificação com a ancestralidade indígena. Toda a narrativa travada por um viés ufanista para concluir ao tempo da sua morte que o País era uma projeção pessoal em contraponto ao individualismo e à corrupção instituídos, que submeteram o protagonista à privação da liberdade por denunciar atrocidades do regime.

A metáfora contundente do escritor foi seu instrumento de luta contra a exclusão política que se estabeleceu na República e que legou ao povo se manifestar através de sua literatura, resistente nas idéias de Barreto e Euclides da Cunha, sua arte, seus costumes e de seus grupos - as pequenas repúblicas a que se refere o historiador José Murilo de Carvalho, que foram se estabelecendo à margem das elites com simbologias peculiares.

A festa da Penha, por exemplo, reunia os negros e a população do subúrbio; a Pequena África era o reduto dos negros oriundos da Bahia que, com música e religião, inspiraram os ranchos carnavalescos e, após, o samba. A cultura popular também se imiscuiu no futebol, esporte de elite, que foi buscar nos negros os “pés-de-cabra” aptos à prática do esporte. Esse movimento legitimamente popular instituiu a cultura do samba e do futebol como linguagem máxima de nossa identidade social. Não sem razão se lhes reconhecem o caráter artístico...

Entretanto, essa expressão foi maldosamente interpretada como um traço de bestialização do povo e perdura como insígnia de alienação e desinformação reafirmadora de uma divisão social nunca superada na base por ter o excluído político militado para criar a face coletiva da nossa imagem. É preciso esse reconhecimento histórico desprezado em razão da repugnância que a elite ostenta à sua origem mestiça, simples e “pé no chão”.

Por via transversa, a politização se manifestou através da arte, onde se desenvolveu o respeito às diversidades e à tolerância aos grupos culturais, às pequenas repúblicas. Nesse sentido, operou-se, a toda evidência, a inclusão, a educação informal e a integração social, que conduz à idéia de que, à margem do sistema, os subsistemas sempre encontram alternativamente o exercício da cidadania.

Tempos outros, ainda na seara da exclusão social, o Rio de Janeiro assistiu a um momento estético e artístico sem precedentes na cultura popular pela genialidade do carnavalesco Joazinho Trinta, que concebeu a celebração do povo das ruas – uma iconografia da idéia dos bestializados – para protestar contra o lixo moral e político a que está submetida a sociedade. Reuniu mendigos, prostitutas, loucos e afins num carro-convite que exibia um panfleto sobre nossa condição tão relevante quanto a imagem do Cristo proibido em apologia à liberdade de expressão:

“Este enredo é um protesto.

Protesto contra a grande maldade que estão fazendo com nossa Terra

Com nossa gente, com nosso planeta

Maldade em desequilibrarem totalmente um País

Que tem sua geografia na forma de um grande coração

Invertido, desequilibrado,

Porém mostrado na forma de uma enorme bunda

E uma bunda do tamanho do Brasil tem muita sujeira para ser expelida

Somente as águas da bacia do Amazonas poderão lavar tantos excrementos

ou então a grande energia do nosso povo

quando ele tiver a consciência de sua força e de seu valor

Por enquanto somos o Gigante que acordou e está levando tanta porrada

e está sendo tão sacaneado que de repente fica inerte

É preciso começar a reagir

É obrigação de todos nós participar desse trabalho

Cada um deve agir à sua maneira

No nosso caso, nós sabemos fazer carnaval , é o nosso ofício..."

É a arte como expressão da dignidade de um povo...a despeito dos preconceituosos e segregadores!

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Reflexões de Lima Barreto

"A República no Brasil é o regime da corrupção. Todas as opiniões devem, por esta ou aquela paga, ser estabelecidas pelos poderosos do dia. Ninguém admite que se divirja deles e, para que não haja divergências, há a "verba secreta", os reservados deste ou daquele Ministério e os empreguinhos que os medíocres não sabem conquistar por si e com independência."

"Ninguém quer discutir; ninguém quer agitar idéias; ninguém quer dar a emoção íntima que tem da vida e das coisas. Todos querem "comer".

"Comem" os juristas, "comem" os filósofos, "comem" os médicos, "comem" os advogados, "comem" os poetas, "comem" os romancistas, "comem" os engenheiros, "comem" os jornalistas: o Brasil é uma vasta "comilança".

"Esse aspecto da nossa terra para quem analisa o seu estado atual, com toda a independência de espírito, nasceu-lhe depois da República."

Extraídos da crônica A Política Republicana, publicada em 1918.


quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Tribofe da "Belle Époque"


As moedas de cinquenta centavos ostentam a efígie do nobre Barão do Rio Branco, jornalista e diplomata, ocupante da cadeira 34 da Academia Brasileira de Letras, que já estampara a nota de mil cruzeiros no fim da década de setenta e que a linguagem popular apelidou de “barão” em referência à sua imagem.

A par de uma lista de reconhecidas contribuições, vale a lembrança de que o nobre Rio Branco comandou uma grande reforma que se instituiu no País no período republicano, um choque de modernização civilizadora, inspirado nos modelos de vida européia, na “belle époque” parisiense, que posteriormente se revelou “caipira”, com repercussões na literatura e na estética, à exceção honrosa do brilhante Lima Barreto atado às nossas raízes, embora se discuta seu apego à monarquia.

O processo de urbanização no Rio se deu com a pavimentação da avenida Beira-Mar, parques foram reflorestados, os bondes modernizados, o centro foi revitalizado, obrigando os moradores da região a se instalarem nos morros próximos e nos subúrbios, num processo que germinou a mal compreendida “favelização” e fundamenta historicamente o pensamento estigmatizado de que o povo do subúrbio é forçosamente excluído dos bens econômicos e culturais em razão de sua legítima opção ou necessidade de viver ao largo das áreas onde se concentra a classe dominante, que à época era o bairro de Botafogo e rua do Ouvidor. Nada tão coerente com o contexto, por essa ótica, então, do que nomear essa gente de favelada e suburbana, desqualificando-a, pois, de sua cidadania adjetivada de negra e pobre como espécie de agnome inserto no registro de nascimento ou de existência.

O cenário descrito é apenas para sublinhar que o nobre Barão do Rio Branco fora um capoeira – Jose Maria da Silva Paranhos Junior. Segundo fontes históricas, os capoeiras foram fundamentais à manutenção do ideal abolicionista, tomando as ruas com suas lutas, suas divisões ideológicas (alguns eram monarquistas e outros abolicionistas), navalhas, invasões de jornais, o que fomentou a chamada capoeiragem política e a perseguição às suas maltas. No período republicano, dividiam-se ideologicamente, reunidos em passeatas que resultavam em tumultos.

O nobre Barão do Rio Branco foi um dos que militou com suas idéias de administração com fervor por um Brasil elitizado, de inspiração européia, renegador de sua cultura e, por consequência, segmentado social. Simbologia do poder como instrumento de produção da desigualdade e de uma contra-visão.

Entretanto, a máxima curiosidade de sua extensa biografia é o tempo de sua morte: carnaval de 1912. Festa da celebração das colheitas nas lavouras (Egito), uma metáfora da gente simples junto a terra; festa de Dionísio expulso do Monte Olimpo (Grécia); festa das sacerdotisas desordeiras que adoravam a Baco; festa das saturnálias que celebravam a liberdade. Festa da igualdade no mundo contemporâneo, significativa partida adornada pelo traço que ideologicamente lhe careceu, quando por sua trajetória teria sido importante a prevalência.

Velhos tempos, mesmo homem.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Justificativa

O historiador José Murilo de Carvalho, na relevante obra Os bestializados: O Rio de Janeiro e a República que não foi pautou-se no cenário da instituição do regime republicano e sua repercussão na organização da cidade carioca, à época capital federal, sob o espectro da cidadania não exercida. Uma leitura antes humanista e antropológica do não-exercício da participação popular num regime de liberdade e igualdade ideológicas – a República que não era - e que se desenvolveu à negação de seus valores imanentes.

O povo carioca àquele tempo era bem caracterizado pela marginalidade (no contexto do diferencial) dos ladrões, prostitutas, malandros, desertores do Exercito e Marinha, de navios estrangeiros, ciganos, ambulantes, tapeiros, criados, recebedores de bondes, engraxates, carroceiros, floristas, bicheiros, jogadores, pivetes e na figura resistente dos capoeiras; dentre os cidadãos ditos de “bem” estavam os comerciantes, burocratas e o proletariado, evidenciando uma formação social liberal burguesa assentada num maniqueísmo odioso que pulsa vigorosamente em nossa República fundamentada numa democracia em que mudaram tão-somente os atores de um reconhecido roteiro. Eram os bestializados de outrora, simbólicos de um Brasil sem povo; somos os bestializados da modernidade, quanta verossimilhança!

No tempo da vigência máxima das liberdades civis, em que a dogmática discute bravamente a garantia de direitos humanos de quarta ou quinta gerações, a figura do bestializado, do atônito, do indiferente ou do revoltado é expressão máxima de uma cidadania de papel (Dimenstein), daquele que posto à margem do processo político, econômico e cultural tem sua dignidade de pessoa humana desrespeitada pela própria negação à efetivação de direitos, individualmente, na relação entre Estado e cidadão e nas razões de “estado” invocadas para justificar a violência coletiva entre nações.

A linguagem desse bestializado do sistema político foi bem desenhada na 1ª Mostra de Cinema sobre Direitos Humanos na América do Sul, centrada em temas como acessibilidade, trabalho escravo, infantil, condição carcerária, discriminação racial, questão fundiária, em que indagados aos africanos de todas as condições o que seriam direitos humanos obtiveram ausência de resposta sublinhada pela expressão de indiferença, pragmatismo ou revolta, o tom da negação da própria condição de existir.

Da noção, infere-se outra em reverso, espelhada no atavismo clássico da atuação humana que forjou a destruição do meio, o pensamento fascista, as ditaduras e seus legados espúrios, o uso desproporcional da força, a afirmação do poder punitivo e as desigualdades primárias a ensejar reflexão de que a humanidade foi construída e se sustenta segundo a visão de um duelo medieval e autofágico extraído da simbologia filosófico-religiosa das bestas, que há de ser superada pelo ideário de uma sociedade justa e igualitária.

Humanistas e bestializados, por si e por outrem, eis o tempo de bradar!