
O historiador José Murilo de Carvalho, na relevante obra
Os bestializados: O Rio de Janeiro e a República que não foi pautou-se no cenário da instituição do regime republicano e sua repercussão na organização da cidade carioca,
à época
capital federal, sob o espectro da cidadania não exercida. Uma leitura antes humanista e antropológica do não-exercício da participação popular num regime de liberdade e igualdade ideológicas – a República que não era - e que se desenvolveu à negação de seus valores imanentes.
O povo carioca àquele tempo era bem caracterizado pela marginalidade (no contexto do diferencial) dos ladrões, prostitutas, malandros, desertores do Exercito e Marinha, de navios estrangeiros, ciganos, ambulantes, tapeiros, criados, recebedores de bondes, engraxates, carroceiros, floristas, bicheiros, jogadores, pivetes e na figura resistente dos capoeiras; dentre os cidadãos ditos de “bem” estavam os comerciantes, burocratas e o proletariado, evidenciando uma formação social liberal burguesa assentada num maniqueísmo odioso que pulsa vigorosamente em nossa República fundamentada numa democracia em que mudaram tão-somente os atores de um reconhecido roteiro. Eram os bestializados de outrora, simbólicos de um Brasil sem povo; somos os bestializados da modernidade, quanta verossimilhança!
No tempo da vigência máxima das liberdades civis, em que a dogmática discute bravamente a garantia de direitos humanos de quarta ou quinta gerações, a figura do bestializado, do atônito, do indiferente ou do revoltado é expressão máxima de uma cidadania de papel (Dimenstein), daquele que posto à margem do processo político, econômico e cultural tem sua dignidade de pessoa humana desrespeitada pela própria negação à efetivação de direitos, individualmente, na relação entre Estado e cidadão e nas razões de “estado” invocadas para justificar a violência coletiva entre nações.
A linguagem desse bestializado do sistema político foi bem desenhada na 1ª Mostra de Cinema sobre Direitos Humanos na América do Sul, centrada em temas como acessibilidade, trabalho escravo, infantil, condição carcerária, discriminação racial, questão fundiária, em que indagados aos africanos de todas as condições o que seriam direitos humanos obtiveram ausência de resposta sublinhada pela expressão de indiferença, pragmatismo ou revolta, o tom da negação da própria condição de existir.
Da noção, infere-se outra em reverso, espelhada no atavismo clássico da atuação humana que forjou a destruição do meio, o pensamento fascista, as ditaduras e seus legados espúrios, o uso desproporcional da força, a afirmação do poder punitivo e as desigualdades primárias a ensejar reflexão de que a humanidade foi construída e se sustenta segundo a visão de um duelo medieval e autofágico extraído da simbologia filosófico-religiosa das bestas, que há de ser superada pelo ideário de uma sociedade justa e igualitária.
Humanistas e bestializados, por si e por outrem, eis o tempo de bradar!
Saudações Andréia Garcia primeiro: pela bela iniciativa dê abordar temas tão progressistas que contribuem dinamicamente, para a evolução da vida em sociedade nos fazendo evoluir como seres humanos quê somos e segundo, pela coragem e ousadia de abrir um espaço na rede ao discutir um tema quê embora faça parte do nosso cotidiano, não é tão abordado como deveria, e que muitas vêzes, é tratado como um tema sem menor importância pelas pessoas muitas delas, não compreendem a importância deste assunto, assunto este que coloca na minha opinião, a discussão dos chamados direitos “ Primários ou basilares ”, que permitem a qualquer ser humano se desenvolver condignamente, na minha opinião, é mais importânte discutirmos de onde pode partir a nossa evolução pessoal, do que saber por exemplo, “ quando o ser humano vai pisar o solo do planeta Marte ”, tema que só interessa as grandes empresas que ganham dinheiro com isso, e com alguns cientistas que vivem fechados nisso porém, é importânte salientar que só nos interessamos por algo quando nos desperta um grande interesse, assim como quando alguém vai conhecer um país, “ FRANÇA ”, por exemplo, que eu considero uma das referências no que tange a reconhecida militância que eles sempre fazem na defesa dos direitos referidos acima, têm que saber um mínimo do idioma francês para se poder ter uma noção sobre o significado da sua evolução como sociedade.
ResponderExcluirComentário II - ( Capoeiras x Burguesia )
ResponderExcluirDepois desse preâmbulo, que modéstia a parte achei bem feito, creio que uma sociedade independente e evoluída se faz através das décadas e sempre com uma formação religiosa, cultural social e econômica que permita a refletir para então evoluir no seu papel histórico não permitindo que o oportunismo e as chamadas soluções fáceis sirvam de tentação para se jogar as questões sociais para debaixo do tapete, isso significa que para o Brasil avançar, tem que se basear em modelos bem sucedidos de formação social para ai sim, forjar o seu próprio modelo de desenvolvimento, o exemplo da Austrália, “ e não me venham dizer que eles conseguiram por estarem localizados no fim do mundo o que é uma verdade, rsrsrs ) ”, uma nação com formação mais jovem que a brasileira, mostra que é possível sonhar e alcançar um bem estar social com garantias para seus cidadãos mostra que quando uma nação se preocupa em copiar, e não trabalhar suas questões básicas, se torna Bestializada, se são burgueses ou capoeiras me parece um detalhe.
Pois é Hamilton, a grande questão de se basear em modelos bem sucedidos de formação social é a importação desses modelos como tecnologia pura, como instrumento de organização do Estado a partir de realidades estrangeiras, sem uma avaliação política, como ocorre, por ex., com a lei penal brasileira, importada da Alemanha e repensada com fundamentos extraídos de uma sociedade que não dialoga em seus segmentos. Como observou lindamente o Ministro da Corte Suprema de La Nación (Argentina),Eugenio Zaffaroni, é preciso conter os efeitos da globalização despolitizada. No Brasil, a construçao de uma identidade social está se realizando sem qualquer politização, sem qualquer dialética.
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