
As moedas de cinquenta centavos ostentam a efígie do nobre Barão do Rio Branco, jornalista e diplomata, ocupante da cadeira 34 da Academia Brasileira de Letras, que já estampara a nota de mil cruzeiros no fim da década de setenta e que a linguagem popular apelidou de “barão” em referência à sua imagem.
A par de uma lista de reconhecidas contribuições, vale a lembrança de que o nobre Rio Branco comandou uma grande reforma que se instituiu no País no período republicano, um choque de modernização civilizadora, inspirado nos modelos de vida européia, na “belle époque” parisiense, que posteriormente se revelou “caipira”, com repercussões na literatura e na estética, à exceção honrosa do brilhante Lima Barreto atado às nossas raízes, embora se discuta seu apego à monarquia.
O processo de urbanização no Rio se deu com a pavimentação da avenida Beira-Mar, parques foram reflorestados, os bondes modernizados, o centro foi revitalizado, obrigando os moradores da região a se instalarem nos morros próximos e nos subúrbios, num processo que germinou a mal compreendida “favelização” e fundamenta historicamente o pensamento estigmatizado de que o povo do subúrbio é forçosamente excluído dos bens econômicos e culturais em razão de sua legítima opção ou necessidade de viver ao largo das áreas onde se concentra a classe dominante, que à época era o bairro de Botafogo e rua do Ouvidor. Nada tão coerente com o contexto, por essa ótica, então, do que nomear essa gente de favelada e suburbana, desqualificando-a, pois, de sua cidadania adjetivada de negra e pobre como espécie de agnome inserto no registro de nascimento ou de existência.
O cenário descrito é apenas para sublinhar que o nobre Barão do Rio Branco fora um capoeira – Jose Maria da Silva Paranhos Junior. Segundo fontes históricas, os capoeiras foram fundamentais à manutenção do ideal abolicionista, tomando as ruas com suas lutas, suas divisões ideológicas (alguns eram monarquistas e outros abolicionistas), navalhas, invasões de jornais, o que fomentou a chamada capoeiragem política e a perseguição às suas maltas. No período republicano, dividiam-se ideologicamente, reunidos em passeatas que resultavam em tumultos.
O nobre Barão do Rio Branco foi um dos que militou com suas idéias de administração com fervor por um Brasil elitizado, de inspiração européia, renegador de sua cultura e, por consequência, segmentado social. Simbologia do poder como instrumento de produção da desigualdade e de uma contra-visão.
Entretanto, a máxima curiosidade de sua extensa biografia é o tempo de sua morte: carnaval de 1912. Festa da celebração das colheitas nas lavouras (Egito), uma metáfora da gente simples junto a terra; festa de Dionísio expulso do Monte Olimpo (Grécia); festa das sacerdotisas desordeiras que adoravam a Baco; festa das saturnálias que celebravam a liberdade. Festa da igualdade no mundo contemporâneo, significativa partida adornada pelo traço que ideologicamente lhe careceu, quando por sua trajetória teria sido importante a prevalência.
Velhos tempos, mesmo homem.
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ResponderExcluirO que seria da humanidade sem as mães?!?
ResponderExcluirCOMENTÁRIO III
ResponderExcluirEste artigo postado está bom, e mostra que se o nobre Barão tivesse valorizado mais a sua origem social talvez tivesse feito uma política mais integracionista, e não segregacionista o que me faz ver com certa tristeza que políticos como o prefeito que acabou de deixar o cargo no Rio, repete o mesmo modelo que em 1912, se mostrou falido e decadente, e eu acrescento, Ao contrário do reclame do antigo Banco Boavista : “ Velhas Idéias Nenhum Ideal ”
Andréia,
ResponderExcluirestou adorando os textos. Você é realmente uma pessoa incrível! Já estava na hora de vc colocar suas idéias para o nosso "mundinho mundão" ficar mais inteligente. Sou sua fã incondicional.
bj
Leca
Obrigada, Leca, a recíproca é verdadeira. Seja bem-vinda!
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