quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Lá no pé do Cruzeiro, ô Jurema, olhai pelos Tupinambá de Olivença!

" Jacy é nossa lua

que ilumina nossa aldeia

Tupã venha arramiar (dançar)

Eu vou pedir a minha mãe Jacy

que ela venha nos ajudar

Eu vou pedir a meu pai Tupã

para nossa aldeia se alevantar”

Aprendi a canção no Poranci, o ritual de purificação dos índios Tupinambá de Olivença, em Ilhéus, ritual de unificação e celebração da vida, da divindade e da natureza.

Fui submetida a uma avaliação da liderança para adentrar o ritual, numa perquirição se a moça “branca européia” tinha força física e espiritual para o momento. Feita a leitura, restou o desafio que me vestisse ou despisse como um deles para participar da roda, ao aviso de que o frio era estelar e o desafio representaria uma viagem, já nessa altura bem acompanhada de um medo silencioso.

Fogueira em crépito, o alinhamento dos dançantes forma na verdade um elipse – a terra pelo lado de dentro; o universo, sua face externa; o chão onde se dança é o céu; abaixo da Terra há outra morada, onde estão os espíritos, os encantamentos que comportam uma patamar superior onde estão Tupã e Jesus Cristo e, no inferior, o mal personificado na Anhanga a ser expurgada do corpo e da mente.

Esses mundos se interligam por canto, dança e fumaça – então entendi a premissa do desafio transcendental lançada pela liderança da aldeia, porquanto na roda se aprende a ciência do índio, com pouca retórica e muito sentimento, integração com o mundo interior, com o próximo através de um sentimento de pertença e respeito à ancestralidade, à raiz, repositório da manifestação do inconsciente coletivo. Perfeita representação do sentido antropológico de grupo, bem apreendida lição.

Os Tupinambá de Olivença eram conhecidos como “caboclos” e, após um período de dispersão, reorganizaram-se em busca de sua indianidade, como, aliás, marca a luta pela sobrevivência do índio brasileiro alçado à categoria de personagem para ilustrar foto de turista; já na década de 20, o governo construiu uma ponte sobre o rio Cururupe na tentativa de urbanizar o local e transformar a região dos Tupinambá em ponto de veraneio, paradigma do conflito que resultou no Massacre do Rio Cururupe um símbolo da luta do índio por sua identidade.

No esteio da vitória pela demarcação da reserva Raposa Serra do Sol, os Tupinambá de Olivença lutam pelo reconhecimento de sua própria terra, de seu espaço canto-dança, que abriga cerca de 3000 índios num perímetro de 150 Km ao longo dos municípios de Ilhéus, Una, Buerarema e São José da Vitória sujeitos igualmente ao esbulho e violência já fartamente documentados, à vista do que a história já esboçou das lutas primitivas pela afirmação da identidade do índio e sua inserção definitiva no retrato do povo brasileiro, que se assenta, por óbvio, no reconhecimento de seu direito de estar e ser conforme a minoria que lhe deu origem – eis a garantia fundamental aplicada à hipótese a dispensar novos mártires forjados na dizimação do Cururupe.

Acessem o portal, clicando no título, e participem do abaixo-assinado em favor da causa.

11 comentários:

  1. Acho você uma brihante, sem mais.

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  2. Andreia me convencer a assinar. adorei

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  3. Irado Andreia! Se a gente pensar que a Raposa Serra do Sol foi demarcada pelo STF então essa tribo vai rolar tb. acho justo porque o povo brasileiro não reconhece o índio, é tipo mesmo foto de turista que acha o Brasil uma floresta. É legal entrar aqui e ver uma mensagem. valeu por voc~E ter me respondido no email

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  4. eu estudei sobre isso na aula de cultura brasileira irado

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  5. Caramba Deia, estou sempre por aqui.

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  6. Bruno, a prevalecer o precedente jurídico, essa me parece mais uma demanda procedente e a sinalização da regularização da questão possessória indígena nessa direção, o que é desejável à garantia constitucional. A questão que emergiu da Raposa Serra do Sol é de fundo e se estende às demais tribos: demarcação contínua ou não. Discutiu-se se as cidades deveriam ser excluídas, a teor da idéia da "aculturação" do índio, de sua inserção com a modernidade, já que é muito pouco provável que eles vivam somente da vida naturalista - caça e pesca e relação com a terra. O STF optou pela terra contínua, excluindo pois o acesso dos não-índios e a atuaçao destrutiva dos madeireiros e do agronegócio. Em contrapartida, os índigenas clamariam o apoio da Reserva para sobreviver do naturalismo tão-somente; entretanto, os que se relacionam com os invasores temem a perda do acesso à modernidade, o que me parece ser a tônica de uma sociedade capitalista e globalizada.

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  7. O STF optou pela garantia da terra, não resta dúvida que os índios terão que se reorganizar, temo que se reproduza na prática os efeitos da Lei que aboliu a escravidão - abandonar os destinatários à própria sorte, conquanto seja reconduzi-los à preservação de sua cultura. O Estado e as ONG´s não podem instituir o "deixa rolar" nessas regiões num primeiro momento, que sinaliza a retirada de todo o status quo instituído, apesar dos excessos, mas que representou até então um modo de viver. A questão é mais complexa do que uma decisão judicial.

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  8. Jornalista político18 de agosto de 2009 às 15:12

    Andreia parabéns pelo seu blog é de primeira linha.

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  9. Sinceramente cara eu prefiro que as áreas sejam só dos índios mesmo, porque aí os caras lá entram com garimpo, com exploração e usa uma mão de obra barata em troca de dinheiro com os índios que acabam não vivendo seus ensinamentos, Andreia. Acho que o Supremo agiu certo, é sim indio hoje é cartão postal sim, mas a cultura é outra coisa e se não garantir uma terra livre como vai ser na minha opinião a terra tem que ser contínua.

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  10. Bruno, tendo em vista a conjuntura em que o índio está inserido, o STF decidiu acertadamente pela garantia contínua à terra, até porque há várias etnias ancestrais que se estabeleceram no local. A questão mais ampla é a conciliação de valores da aculturação com a preservação da cultura indígena, sem que pudessem ser necessariamente excludentes. Talvez fosse o ideal de uma convivência pacífica, da inserção do índio em nossa sociedade como cidadão, como um igual, sem o traço do cocar ou do arco e flecha. Na Raposa Serra do Sol, por ex., todos os índios tinham parentes no trabalho de agricultura, na rizicultura, ou eles mesmos se inseriram na relação de trabalho com os brancos, o que causou um racha entre pró-brancos e pró-índios, a toda evidência um debate segregacionista, que se pôde extrair da fala do líder dos pró-brancos de que haveria muito "derramamento de sangue" com a decisão do STF pela retirada dos grupos alheios à etnia protegida.

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  11. Gostaria de viver um tempo em que essas diferenças pudessem ser vividas por osmose cultural ou fusão cultural: na primeira há a unificação de elementos culturais, trocas comerciais, matrimoniais, escambos, até conflitos, típicos de zonas de fronteira; a segunda, os elementos culturais se misturam para criar uma outra cultura, da qual o México é exemplo ao fundir a cultura azteca nativa com o invasor espanhol. No Brasil, essa aculturação me parece existir apenas ao nível da pele: temos o caboclo e o cafuzo, resultados do processo de osmose cultural, mas a inclusão do índio na sociedade está ainda circunscrita primariamente na preservação de sua natureza silvícola. Considero essa uma postura eminentemente racista, conquanto esteja em questão a preservação de uma cultura vulnerável ao contexto, razão por que se expulsa o diferente para garantir a terra, o espaço geográfico que é a base de conceito nação (língua,cultura, etc)
    O inverso talvez fosse interessante: garantir a convivência pacífica e coibir excessos de terceiros, como se procede abstratamente com todo brasileiro.
    São as utopias possíveis, que demandam tempo e preparo.
    Garantir apenas a terra livre é um minus...

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