Um canal que corta a rua principal do charmoso e sofisticado bairro de São Francisco, em Niterói, conduz ao acesso à comunidade da Grota do Surucucu, que há bem pouco tempo desconhecia serviços de saneamento básico e a pouco eficiência do tão divulgado projeto Médico de Família, cenário conhecido da desigualdade em contraponto à vizinhança abastada. Até o nome é a inferência ao veneno, acreditava-se que o local fora infestado da cobra que lhe deu a alcunha...
O músico Marcio Selles apresentou aos jovens de todas as idades instrumentos musicais de seu domínio – violino, viola, violoncelo e flauta, num repertório que vai de Vivaldi ao nosso querido choro e mescla, ao final, o erudito à percussão do samba, num trabalho brilhante de sonoridade e educação musical, batizado de Orquestra de Cordas da Grota (OCG), premiadíssimo e repercutido no exterior.
Sobreleva o relato do mais promissor de seus violonistas, Thiago, que aduziu num documentário francês que sua primeira experiência com a música clássica surtiu-lhe o efeito de uma “droga”, pela capacidade de transcendência experimentada e, como o vício que aponta ao abismo, o reverso dele abriu-lhe o caminho à cidadania, ao se tornar monitor do instrumento num projeto da Prefeitura de Niterói, Passaporte para o Futuro, que recruta os jovens músicos para o emprego que lhes garante a condição digna de existir, a fim de que possam multiplicar iguais em diversas comunidades carentes, fazendo ao outro o que lhes fizeram de bem, de bom, de belo e de humano.
Não bastam oficinas de percussão e congêneres em comunidades carentes, por mera diversão ou caridade, é preciso um projeto de educação subjacente que se lhes reverta a condição de carência. No caso, o Estado chegou depois de uma iniciativa vitoriosa e familiar de um músico que foi além da percepção e manejo de seu instrumento, mas importa é o contexto de profissionalizar e realizar o acesso à cidadania de seus moradores. Se ela se implementa pela musicalização, alvíssaras, porque é meio de realizar com maior razão os valores da coletividade, da sensibilidade, da auto-estima e da pertença, sem o que qualquer processo de educação é retumbante fracasso. A primeira e a última memória do homem é a musical, daí sua relevância e sua incontrolável força na efetivação dos valores fundamentais da liberdade, da igualdade e da solidariedade à potência de um bumerangue, essência do efeito multiplicador de talentos da iniciativa da Grota de Selles – um caminho à superação.
Incluir a obrigatoriedade do ensino de música na educação fundamental, como instituído recentemente pela lei, é notável, porém, há que se perquirir para que ensinar, eis o norte de toda proposta com fins pedagógicos e culturais relevantes. Formação cultural e inserção social são as bases do que se convencionou chamar de “educação para a vida”.
Tempos idos, fui vizinha da comunidade da Grota do Surucucu, do outro lado da margem, por onde sempre passava com aquele temor juvenil do desconhecido perigoso e mal compreendido. Fui assistir à apresentação da OCG no Teatro Municipal de Niterói e reencontrei um antigo vizinho, que acompanhava seu filho músico na exibição da Orquestra. Ele me disparou de pronto:" eu sempre te via passar e hoje você veio apertar minha mão, mas não tem nada não, tinha um valão entre a gente e hoje você finalmente atravessou a ponte..."

Andreia fiquei emocionada
ResponderExcluirVocê vê como um projeto relativamente simples pode fazer pelas pessoas, se todos usassem a sua profissão e fosse ao encontro da sociedade já seria uma movimento social. E a música eu acho que só pode realmente fazer o bem, porque é dos deuses, pode até não dar um profissão, mas pode melhorar a estima desas pessoas
ResponderExcluirNão sou a melhor pessoa pra falar sobre o tema, mas vi uma exposição de uma professora de canto em Niteroi, Agnes Moço, que criou um método brilhante de musicalização infanto-juvenil para "crianças" de todas as idades. Os alunos começam com dois meses de idade e, por óbvio, são capazes de se expressar em sua linguagem própria. O bebê não entende as palavras que lhes proferimos, mas a melodia das palavras, o tom propriamente dito.
ResponderExcluirNo seu relato os bebês de oito meses são instados a acariciar bonecos no ritmo da música e, posteriormente, estes bonecos são trocados por eles mesmos, que não registram qualquer ato de agressão ou força superior ao necessário e ao compasso musical, exibindo pois os primeiros sinais de sensibilização ao toque.
Enfim, a musicalização pode desenvolver uma série de questões relevantes à personalidade, o senso de coletivo, de autoestima e afins, sem que necessariamente caminhe para uma profissionalização, porque é um meio fundamental para o desenvolvimento da linguagem e da expressão.
Eu mesma estudei piano e teoria musical por oito anos e considero que foi este o caminho que me abriu à percepção artística e ao apreço pela literatura, sem qualquer dúvida.
São meios simples, que demandam apenas profissionais com domínio de metodologia e conhecimento musical, que no Brasil, por nossa origem, excede em qualidade.
Vejam vídeo no youtube do trabalho de Agnes Moço: http://www.youtube.com/watch?v=UNVqMXmVpVg
Eu Eu conheço esse trabalho Deia, é emocionante mesmo.
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