
Toda a verborragia do ilustre Lima Barreto contra a República lhe rendeu a fama de escritor anárquico e adepto do regime monárquico, um monárquico “liberal”,em razão de ter sido protegido por um deles, o que, na ideologia, evidencia paradoxo insuperável. Na verdade, fora um nacionalista incompreendido em sua crítica voraz ao sistema e à hierarquização de classes sociais através da literatura como arte, função social.
A metáfora contundente do escritor foi seu instrumento de luta contra a exclusão política que se estabeleceu na República e que legou ao povo se manifestar através de sua literatura, resistente nas idéias de Barreto e Euclides da Cunha, sua arte, seus costumes e de seus grupos - as pequenas repúblicas a que se refere o historiador José Murilo de Carvalho, que foram se estabelecendo à margem das elites com simbologias peculiares.
A festa da Penha, por exemplo, reunia os negros e a população do subúrbio; a Pequena África era o reduto dos negros oriundos da Bahia que, com música e religião, inspiraram os ranchos carnavalescos e, após, o samba. A cultura popular também se imiscuiu no futebol, esporte de elite, que foi buscar nos negros os “pés-de-cabra” aptos à prática do esporte. Esse movimento legitimamente popular instituiu a cultura do samba e do futebol como linguagem máxima de nossa identidade social. Não sem razão se lhes reconhecem o caráter artístico...
Entretanto, essa expressão foi maldosamente interpretada como um traço de bestialização do povo e perdura como insígnia de alienação e desinformação reafirmadora de uma divisão social nunca superada na base por ter o excluído político militado para criar a face coletiva da nossa imagem. É preciso esse reconhecimento histórico desprezado em razão da repugnância que a elite ostenta à sua origem mestiça, simples e “pé no chão”.
Por via transversa, a politização se manifestou através da arte, onde se desenvolveu o respeito às diversidades e à tolerância aos grupos culturais, às pequenas repúblicas. Nesse sentido, operou-se, a toda evidência, a inclusão, a educação informal e a integração social, que conduz à idéia de que, à margem do sistema, os subsistemas sempre encontram alternativamente o exercício da cidadania.
Tempos outros, ainda na seara da exclusão social, o Rio de Janeiro assistiu a um momento estético e artístico sem precedentes na cultura popular pela genialidade do carnavalesco Joazinho Trinta, que concebeu a celebração do povo das ruas – uma iconografia da idéia dos bestializados – para protestar contra o lixo moral e político a que está submetida a sociedade. Reuniu mendigos, prostitutas, loucos e afins num carro-convite que exibia um panfleto sobre nossa condição tão relevante quanto a imagem do Cristo proibido em apologia à liberdade de expressão:
“Este enredo é um protesto.
Protesto contra a grande maldade que estão fazendo com nossa Terra
Com nossa gente, com nosso planeta
Maldade em desequilibrarem totalmente um País
Que tem sua geografia na forma de um grande coração
Invertido, desequilibrado,
Porém mostrado na forma de uma enorme bunda
E uma bunda do tamanho do Brasil tem muita sujeira para ser expelida
Somente as águas da bacia do Amazonas poderão lavar tantos excrementos
ou então a grande energia do nosso povo
quando ele tiver a consciência de sua força e de seu valor
Por enquanto somos o Gigante que acordou e está levando tanta porrada
e está sendo tão sacaneado que de repente fica inerte
É preciso começar a reagir
É obrigação de todos nós participar desse trabalho
Cada um deve agir à sua maneira
No nosso caso, nós sabemos fazer carnaval , é o nosso ofício..."
É a arte como expressão da dignidade de um povo...a despeito dos preconceituosos e segregadores!

É isso as pessoas viram o nariz para sermos o pais do samba e do futebol e entendem isso como o cartaz de uma nação sem educação, mas na verdade foi como o povo se manifestou mesmo, com sua cultura. Concordo, só que agora podemos evoluir.
ResponderExcluirJ 30 foi um visionário politico
ResponderExcluirMe indicaram esse blog do clube de leitura, muito legal. Parabéns Andreia
ResponderExcluir