A Estação Primeira de Mangueira pautou-se na visão coletiva de Darcy Ribeiro e o trouxe de volta ao palco do samba referenciada na sua fundamental obra “O povo brasileiro” para cantar nossa identidade étnica, nosso sincretismo primário sob o olhar do homem, sua interação com o próximo e com a terra, o solo fertilizado por “sangue, suor, religião” na linguagem dos compositores da Verde e Rosa.
O autor propõe a desmitificação da premissa de que nosso povo fora pacifista em sua formação ao se debruçar sobre a história violenta de unidade política que se desenvolveu mediante a supressão de nossa identidade étnica em elegia ao processo de estratificação social, numa cisão muito mais profunda do que a questão das raças no País. A guerra dos Cabanos, que teve traço de genocídio, Palmares, conflitos entre lusos e índios, revoltas negras, a guerra pela independência, a insurreição dos Malês, a Farroupilha reafirmaram o passado de lutas, bem como a Guerra dos Canudos, simbologia ímpar da herança religiosa e do apego à terra - os seguidores faziam sua roça para consumo - lançando as bases para o movimento ruralista no Brasil. Todos estes movimentos populares cunharam uma nação unificada em sua base e paradoxalmente dividida – os Brasis ---, composto por gente vinda da Europa, da África, das florestas que surpreendentemente sedimentaram uma cultura homogênea de singular beleza.
O Brasil Caboclo se formou e se multiplicou numa vasta população de gente destribalizada e deculturada oriunda da invasão européia que transformou o povo da Floresta, denominado “índios genéricos”, sem língua e cultura próprias, aos quais foram miscigenados aos mestiços gestados por brancos e mulheres indígenas, que tampouco sendo índios e europeus (numa visão purista), falavam o tupi e resultaram nos caboclos.
A paulistana caipira descobriu o que Portugal desejava: o ouro. A busca pelo enriquecimento promoveu então uma grande diáspora (a cultura do ouro), igrejas suntuosas foram estabelecidas nos territórios de Minas Gerais e posteriormente espalhou-se para Mato Grosso e Goiás. Criou-se assim uma cultura dessa gente dispersa que, esgotado o ouro, estabeleceu-se no contato com a a terra e no cultivo da roça de milho, criação de porco, toucinho, vaca, produção de queijo.Dos bandeirantes, quando sedentarizados, vieram os fazendeiros e produtores formando o Brasil Caipira.
Do tráfico de negros da África para a América, cerca de doze milhões no Brasil, metade foi incorporada ao sistema produtivo daqui, especialmente no cultivo do açúcar, na região de Pernambuco à Bahia, que Darcy Ribeiro chama de região Crioula. Posteriormente, o Rio de Janeiro acolheu as províncias negras, nas quais a arte africana se expressa com vigor, os ritmos, a cuíca e o berimbau, a sensualidade libertadora; na culinária, vieram o azeite de dendê, o quiabo, a banana, a pimenta malagueta, o preparo do peixe e galinha, dominaram a cozinha. Darcy Ribeiro observa que os negros do Rio de Janeiro inventaram Iemanjá, uma deusa do amor numa operação cultural mais importante do que qualquer romance, na medida em que passou a ser depositária de pedidos de harmonia afetiva. Engajaram-se tanto na construção do Brasil que perderam parte de sua identidade original.
Na matriz sertaneja, o autor desfaz a idéia de que o Nordeste é a representação da seca, evocando a destinação do Rio São Francisco que possibilitou o plantio de uva e outras frutas. Acolheu a religião católica de Portugal e a simplicidade e religiosidade de seu povo foi o cenário para a atuação dos beatos representados na figura máxima do Conselheiro. Foram para a zona agrícola do sul e migraram para as áreas urbanas, construção civil e indústria, ostentando mão- de- obra desqualificada.
Nos Brasis sulinos, o autor nos fala não de um, mas de três brasis: o dos índios guaranis e das Missões Jesuíticas, que geraram os gaúchos; "o dos ilhenhos, que Portugal mandou buscar para pôr uma presença portuguesa lá e dos gringos, a gringalhada que caiu lá, como uma onda" para concluir com seu pensamento de que o "Brasil é um povo mestiço na carne e no espírito e, como tal, herdeiro de todas as taras e talentos da humanidade."
Darcy Ribeiro gostava profundamente dos iracundos, os intelectuais raivosos que, como ele, vislumbram o mundo pelo rompimento com o estabelecido. Referencia-se em Gregório de Matos, onde o Brasil pela primeira vez teve espírito e foi brasileiro; Manuel Bonfim, o Silvio Romero que mostrou o racismo como técnica européia de dominação colonial e declarou com todas as palavras que o mulato brasileiro funcionava perfeitamente bem...aí estariam as bases da postura para um brasileiro.
Na seara da expressão, que se tome a Mangueira desse sentimento iracundo para homenagear o mais utópico e visionário brasileiro, devolvendo ao humanista Darcy Ribeiro a apoteose que lhe fora subtraída, já sem praças, mas em espírito genuinamente transfigurado na cara de povo.
Canta Estação Primeira!

Máximo!
ResponderExcluirVocê é iracunda?
ResponderExcluirBIA, não sei se sou iracunda, não, mas seguramente não sou áulico, "ajudante de ordens", outra definição de Darcy Ribeiro a respeito daqueles que se contentam com o mundo tal qual ele é. Sou mais utópica do que qualquer outra definição, uma utopia para ver o mundo, um viés. Numa entrevista na Folha de São Paulo, lembro-me que Darcy Ribeiro fez uma colocação que o define bem. No livro Maíra, ele diz"entrar no corpo do índio para ver o mundo com os olhos do índio"; em Mulo, ele diz "entrar no couro de seu povo para ver o mundo sob o ângulo da classe rústica dominante". Taí... me afinizo mais com esse "olhar" a respeito do homem e dos fatos do que propriamente classificações à direita ou esquerda, disso ou daquilo.
ResponderExcluirNa poesia, iracundo é Ferreira Gullar em seu Poema Sujo...
Lendo esse texto me animei mais para ver o desfile da Mangueira, valeu Andreia
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